A família
Calouste Gulbenkian
nasceu em Scutari, Istambul, a 23 de Março de 1869, filho de Sarkis e Dirouhie
Gulbenkian, membros de uma ilustre família arménia cujas
origens remontam ao século IV.
Os seus antepassados, os Princípes de Rechduni, possuíam feudos
no sul do Lago Van na Arménia. No século XI, com o rei Senekerim
de Vaspurakan no trono, os Rechduni estabeleceram-se em Cesareia, Capadócia,
um dos mais antigos berços do Cristianismo oriental. Aqui adoptaram o
patronímico Vart Badrik, um título nobiliárquico bizantino.
Foi quando os Otomanos chegaram ao poder, no século XVII, que o patrónimo
Vart Badrik foi substituído pela forma turca de Gulbenkian.
Geração após geração, durante os quatro séculos
que permaneceu na Capadócia, a família Gulbenkian sempre se dedicou
ao mecenato das artes e a obras de beneficência.
A viagem
O jovem Calouste Sarkis Gulbenkian
iniciou os seus estudos em Kadikoy (Calcedónia),
primeiro na escola Aramyan-Uncuyan, depois na escola francesa de St. Joseph.
Prosseguiu os estudos na Europa, primeiro em Marselha, onde aprofundou os
conhecimentos de francês, depois no King's College de Londres, onde
se diplomou, com distinção, em engenharia (1887).
Aos 22
anos, Calouste Gulbenkian viajou pela Transcaucásia e visitou
os campos petrolíferos de Baku. Corria o ano de 1891. A jornada inspirou
a escrita de um livro – «La Transcaucasie et la Péninsule
d'Apchéron - Souvenirs de Voyage» – e de vários
artigos para a «Revue des Deux Mondes» entre os quais «Le
pétrole, source d' énergie».
Estes artigos atraíram a atenção do ministro de Minas
do Governo Otomano, que pediu ao jovem Gulbenkian para elaborar um relatório
sobre os recursos petrolíferos do Império Otomano, especialmente
na Mesopotâmia.
O visionário
Numa época em que a importância estratégica e económica
do Médio Oriente era desconhecida, Gulbenkian soube antecipar o valor
das reservas de petróleo e mobilizar investidores internacionais,
assim como o governo Otomano, para a necessidade de organizar racionalmente
toda a exploração.
Participa na criação do Royal Dutch Shell Group, estabelece
relações com as indústrias petrolíferas americana
e russa e dá o primeiro impulso a esta indústria no Golfo Pérsico.
A
par do papel determinante que desempenhou nas mais altas esferas dos meios
do petróleo e das finanças, Gulbenkian foi levado a assumir
importantes responsabilidades em matéria política. Inicialmente,
servirá os interesses da sua pátria, o Império Otomano.
Em 1898, é nomeado conselheiro financeiro junto das embaixadas otomanas
em Paris e Londres.
Em 1902, Calouste Gulbenkian adquire
a nacionalidade britânica, trunfo
que lhe vai permitir associar os interesses das duas pátrias, tendo
em conta a grande influência que os britânicos exercem sobre
o Império Otomano.
Depois da I Guerra Mundial, Gulbenkian é nomeado representante comercial
e diplomático da Pérsia em Paris – cargo que exercerá durante
24 anos. A França ficará a dever-lhe infatigáveis esforços
para proteger os interesses do país a nível petrolífero.
No fim da I Guerra Mundial, teve um importante papel nas negociações
que conduziram, em 1920, à assinatura do Tratado de Sèvres
e depois, em 1923, à do Tratado de Lausanne.
O "Senhor cinco por cento"
Em 1910, depois da Revolução dos Jovens Turcos (1908), foi
criado o Banco Nacional da Turquia para promover o desenvolvimento económico
do país. Calouste Gulbenkian, que era já consultor financeiro
e económico das embaixadas otomanas de Londres e Paris, foi nomeado
consultor do banco e encetou negociações com os interesses
alemães que tentavam a todo o custo penetrar no Império Otomano
para obter concessões minerais.
Com o objectivo de explorar as reservas dos riquíssimos campos petrolíferos
iraquianos, em 1912 é criada a Turkish Petroleum Company, detida pela
Royal Dutch Shell (25%), pelo Banco Nacional da Turquia (35%), por interesses
alemães (25%) e por Calouste Sarkis Gulbenkian (15%).
Nos anos 1913-14,
as negociações entre o mundo do petróleo
e os diversos interesses financeiros em jogo, levam à reorganização
da Turkish Petroleum Company (TPC) com o aval dos governos inglês,
turco e alemão. As quotas são divididas entre a Anglo-Persian
Oil Company (actual British Petroleum), o Royal-Dutch Shell Group e os interesses
alemães, tendo Calouste Gulbenkian concordado em reduzir a sua quota
de 15% para 5%, com o objectivo de facilitar a conclusão das negociações.
O termo da Primeira Guerra Mundial arrastou o desmembramento do Império
Otomano. Uma vez mais, Calouste Gulbenkian intervém nas longas negociações
entre a TPC e o Governo Iraquiano que conduzem à obtenção
(1925) da concessão para a exploração petrolífera.
Mas,
entretanto, outros interesses começavam a despertar para a importância
do Petróleo do Médio Oriente: os Estado Unidos da América
não queriam deixar de ter um papel na região. Calouste Gulbenkian
volta a participar nas negociações e desempenha um papel fundamental
no consenso que se estabelece em 1928 entre a Anglo-Persian Oil Company,
o Royal Dutch Shell Group, a Compagnie Française des Pétroles
e o Near East Development Corporation (consórcio das seis principais
companhias petrolíferas americanas). Este acordo realiza-se com base
na célebre "red line" - uma linha traçada sobre o
mapa do ex-Império Otomano - desenhada pelo punho de Calouste Gulbenkian.
Na sequência do acordo estabelecido, a TPC, muda de designação
e chama-se agora Iraq Petroleum Co. Ltd. E nela Calous Gulbenkian detém
5% do capital.
À sua persistente capacidade negocial e à sua flexibilidade
para acomodar novos interesses e situações, mantendo-se sempre
como parte no negócio da exploração petrolífera,
deve Calouste Gulbenkian o facto de ter ficado conhecido nos meios ligados à indústria
petrolífera, como "Senhor cinco por cento".
O coleccionador
A paixão de Calouste Gulbenkian pela arte revela-se cedo. É acima
de tudo a beleza dos objectos que lhe interessa. Junta ao longo da vida,
ao sabor das viagens e conduzido pelo seu gosto pessoal, por vezes após
longas e laboriosas negociações com os melhores peritos e comerciantes
especializados, uma colecção muito ecléctica, única
no mundo. São hoje mais de 6000 peças, desde a Antiguidade
até ao princípio do séc. XX. O seu apego às obras
que vai adquirindo é tal que as considera suas filhas.
A colecção de pintura de Calouste Gulbenkian inclui obras
de Bouts, Van der Weyden, Lochner, Cima de Conegliano, Carpaccio, Rubens,
Van Dyck, Frans Hals, Rembrandt, Guardi, Gainsborough, Rommney, Lawrence,
Fragonard, Corot, Renoir, Nattier, Boucher, Manet, Degas e Monet. De entre
os trabalhos de escultura, figura o original em mármore da célebre
Diana, de Houdon, que pertenceu a Catarina da Rússia, e que Gulbenkian
adquiriu ao Museu Hermitage em 1930.
Ao longo dos anos, a colecção foi aumentando. Como medida
de segurança, a colecção de Paris foi dividida e parte
enviada para Londres. Em 1936, a colecção de arte egípcia
foi confiada ao British Museum e os melhores quadros à National Gallery.
Mais tarde, em 1948 e 1950, essas mesmas peças serão transferidas
para a National Gallery of Art de Washington.
As delicadas deslocações das obras foram realizadas à custa
de diligências fastidiosas e arriscadas. Gulbenkian, com residência
em Lisboa desde 1942, acalenta um único sonho: reunir sob um mesmo
tecto, todas as suas obras dispersas. A ideia do Museu começa a despontar.
Depois
da sua morte e após árduas negociações
com o Governo Francês e às condições em que o
empréstimo à National Gallery of Art, de Washington, havia
sido realizado, foi possível tornar este desejo realidade. Acolecção
completa veio para Portugal em 1960, tendo estado exposta no Palácio
dos Marqueses de Pombal (Oeiras) entre 1965 e 1969.
Só 14 anos após a morte do ilustre coleccionador, o seu último
desejo foi concretizado: o Museu Calouste Gulbenkian abriu as portas em Lisboa.
O filantropo
Calouste Gulbenkian era um generoso filantropo.
Preocupou-se em ajudar os menos favorecidos. Protegeu particularmente as
comunidades arménias,
tendo sido um benfeitor do Patriarcado Arménio de Jerusalém,
ao qual doou uma biblioteca. Fiel devoto da Igreja Arménia, fez construir,
em Londres, a Igreja de São Sarkis, dedicada à memória
de seus pais.
Em 1930, com a morte do fundador da União Geral Arménia de
Beneficência, Boghos Nubar Pacha, Calouste Gulbenkian assume a direcção
dessa organização filantrópica. No entanto, devido aos
entraves que diversas pressões políticas levantaram ao seu
trabalho, demitiu-se dois anos mais tarde.
No seu testamento (1953) deixou
bem expresso o seu carácter de filantropo
ao legar boa parte da sua fortuna à fundação que quis
instituir. Os fins estatutários da Fundação Calouste
Gulbenkian – uma das doze maiores fundações do mundo – são
caritativos, artísticos, educativos e científicos.
Lisboa, 1942
Em Abril de 1942, em plena II Guerra Mundial,
Calouste Gulbenkian entrou em Portugal pela primeira vez, a convite do
embaixador de Portugal em França.
Chega a Lisboa projectando seguir
viagem para Nova Iorque. Adoece. Fica reconhecido ao médico - o professor Fernando da Fonseca - que o trata.
Demora-se mais tempo do que planeara. Sente-se bem acolhido - escreverá,
depois, "que nunca havia sentido em mais lado nenhum" uma hospitalidade
como a que o rodeou em Lisboa, uma cidade tranquila numa Europa devastada
pela guerra. Conhece José de Azeredo Perdigão, que, pela sua
competência, carácter e conhecimentos, ganha rapidamente a sua
confiança e a sua estima. Calouste Sarkis Gulbenkian vai ficando… e
acaba por se instalar em definitivo até à sua morte em 1955.
O Hotel Aviz, em Lisboa, foi a sua casa durante 13 anos. Calouste Gulbenkian
deixou em testamento (18.06.1953) importantes legados aos seus filhos, estabeleceu
pensões vitalícias em favor de outros familiares e colaboradores
de longa data, e criou uma Fundação com o seu nome que foi
a herdeira do remanescente da sua fortuna.
Ao escolher a cidade de Lisboa
para sede da Fundação e ao
criá-la nos termos da lei portuguesa, revelou a sua estima pelo país
que o acolheu num momento crítico da história da Europa.
Morreu em Lisboa, a 20 de Julho de 1955, com 86 anos.